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Resistência cultural  

Publicado em 12 de junho de 2011

Imigrantes que buscaram no Brasil melhores condições de vida, ficaram isolados e sem apoio do poder público

Daniel Antunes – Enviado Especial – 12/06/2011 – 09:16

Leonardo Morais

Norberto Raasch e Luiza Lenke

Norberto e Luiza conversam somente em pomerano e fazem orações em alemão

ITUETA – “A Pomerânia é aqui”, diz o sociólogo Jorge Kuster Jacob, de 53 anos, que também é descendente de pomerano e integra a Comissão Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais criada em 2007 pelo então presidente Lula. Segundo ele, o isolamento imposto aos pomeranos no início do século passado pela falta de políticas públicas para atender povos imigrantes transformou a vida desses descendentes em um martírio.

“Eles tiveram que construir a história sem nenhum tipo de ajuda”, afirma o sociólogo. Ele ressalta que, por outro lado, a comunidade preservou a cultura e, principalmente, a língua. “No Espírito Santo e em Minas Gerais (Itueta, Resplendor e Aimorés), onde há registros de pomeranos, a língua original está bem preservada. Hoje temos crianças de 7 anos falando o idioma, o que significa que será preservado pelo menos por mais 70 e 80 anos”, comemora. Por outro lado, enfatiza Jorge Kuster, na Alemanha, somente os pomeranos com mais de 70 anos conhecem o idioma. “Isso significa que a língua estará extinta em 20 ou 30 anos”, prevê.

Antes de cada refeição, o casal Norberto e Luiza Raasch, de 71 e 72 anos, respectivamente, fazem orações em alemão. A Bíblia que ganharam de presente há mais de 50 anos é uma companheira inseparável. “Na década de 1950, os cultos na igreja Luterana eram feitos em alemão, a segunda língua de quase todos que falam o pomerano”, conta Norberto. Em casa, ele e Luiza só conversam em pomerano. “Às vezes misturamos tudo com o português, mas a gente se entende”, diverte-se.

Projeto desenvolvido pela ONG Rede Vidas, com sede em Itueta, pretende incentivar o idioma pomerano entre os mais jovens. Batizado de “Língua Mutter: O Resgate da Cultura Pomerana”, o projeto está orçado em R$ 290 mil. “Estamos concorrendo a recurso do fundo estadual de cultura”, diz a gestora do projeto, Cyntia Boechat. Além de promover o resgate e o fortalecimento da cultura pomerana, a iniciativa poderá impactar em projetos relacionados ao desenvolvimento da atividade produtiva, meio ambiente e inclusive o turismo. “Esse projeto vem somar a outras atividades já desenvolvidas pela comunidade”, explica Cyntia.

 

Selma Frederico

Selma Frederico, de 62 anos, gosta de mostrar aos visitantes o assoalho de madeira e as janelas pintadas de azul (Leonardo Morais)

Recentemente, os moradores da Vila Neitzel se organizaram para tentar formar um grupo de dança, segundo os costumes pomeranos. As apresentações já acontecem em escolas e eventos de cidades da região. “Estamos resgatando a nossa cultura”, conta Rudio Pieper.

Parte dos pomeranos de Itueta vive em casas antigas, erguidas em madeira no início do século passado. As moradias eram construídas com materiais encontrados nas então virgens florestas da época da colonização. Farta, a madeira de lei era usada na estrutura das edificações, no piso e nas janelas. O reboco era feito de argila e o revestimento final, de barro branco.

O azul das janelas e o branco das paredes remetem às cores usadas nos símbolos da antiga Pomerânia. Em vários pontos da zona rural ainda é possível encontrar casas típicas. “Essa casa foi uma herança dos pais do meu marido. A construção, apesar de ser antiga, é bastante resistente”, comenta Selma Frederico, de 62 anos, que gosta de mostrar aos visitantes o assoalho de madeira da casa e as resistentes janelas construídas há quase cem anos.

Texto e fotos: Jornal Hoje em Dia

  


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